São francesas, tem o corpo no início (cor e coda), e parece associarem-se numa tênue ideia, de que o sentir antecede o pensar. Será que falta razão aos corajosos? Faltaria raciocínio aos covardes?
O medo e a bravura são como gêmeos siameses: duas cabeças atadas a um mesmo corpo operado apenas pelos sentidos. O corpo bicéfalo que não raciocina, o corpo que reage aos estímulos sem indagá-los. Sem esgrimi-los com perguntas, questionando os o quês, e os porquês, e os comos, e os quandos, e os ondes, e os quem e os quantos, que repetimos incessantemente acreditando que assim nos fazemos razoáveis, pois cheios de perguntas e respostas e razão.
É nesse corpo nosso de cada dia que tentamos regular, normalizar, tornar previsível, que se opera o imperativo da coragem e da covardia. É um corpo que esperamos que deixe de ter coração e rabo. O corpo que há de tornar-se apenas uma imensa cabeça crítica. Uma cabeça sem corpo que só responde à razão. Uma cabeça gigante que exige perícia e habilidade na condução dos seus desígnios, mas que não se coloca na dança com os outros corpos.
A dança dos corpos em que estamos todos imersos. Organismos vivos, corajosos e covardes, bailando ao sabor da música que dispensa a métrica, a linha, a projeção e o cálculo. Seriam o corajoso e o covarde apenas impetuosos sentimentais movidos pela bravura e pelo medo, respectivamente? Será que vale a busca pelo comportamento medido, calculado, bem pensado, cheio de razão? Ou será que mais vale o baile dos corpos cheios de sensações e multiplicidades?
sábado, 18 de janeiro de 2020
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