domingo, 23 de fevereiro de 2020

Circulando

Nada do que fazia condizia com o planejado, naquele estado em que o arrependimento ainda não deu sua pancada dura de realidade, e no entanto o sonho começa a despir seu manto leve, e o onírico é reconhecido como tal.
Estava cachorro depois do banho, rolando na terra vermelha só pra comemorar a limpeza. Atrapalhada e feliz de tudo, sabendo que algumas coisas não podem ser refeitas, e mesmo assim escolhendo o colorido da corda bamba à retidão cinza do asfalto.
Lambeu a mão de alguém que oferecia qualquer pedaço de si, aceitou a gentileza, humilde e simples de sempre. Uma vida a receber pequenos presentes: panos de prato, tragadas de cigarro, pão e chá. Reciclava-se. Já havia percebido que a dificuldade principal seria a formação de laços. Mais que a gênese, a manutenção. Como ser junto se tudo é uno? Se se é uma coisa só, não faz sentido unir-se. Já se é antes de separar-se. Seguiu.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Coragem e covardia

São francesas, tem o corpo no início (cor e coda), e parece associarem-se numa tênue ideia, de que o sentir antecede o pensar. Será que falta razão aos corajosos? Faltaria raciocínio aos covardes? 

O medo e a bravura são como gêmeos siameses: duas cabeças atadas a um mesmo corpo operado apenas pelos sentidos. O corpo bicéfalo que não raciocina, o corpo que reage aos estímulos sem indagá-los. Sem esgrimi-los com perguntas, questionando os o quês, e os porquês, e os comos, e os quandos, e os ondes, e os quem e os quantos, que repetimos incessantemente acreditando que assim nos fazemos razoáveis, pois cheios de perguntas e respostas e razão.

É nesse corpo nosso de cada dia que tentamos regular, normalizar, tornar previsível, que se opera o imperativo da coragem e da covardia. É um corpo que esperamos que deixe de ter coração e rabo. O corpo que há de tornar-se apenas uma imensa cabeça crítica. Uma cabeça sem corpo que só responde à razão. Uma cabeça gigante que exige perícia e habilidade na condução dos seus desígnios, mas que não se coloca na dança com os outros corpos.

A dança dos corpos em que estamos todos imersos. Organismos vivos, corajosos e covardes, bailando ao sabor da música que dispensa a métrica, a linha, a projeção e o cálculo. Seriam o corajoso e o covarde apenas impetuosos sentimentais movidos pela bravura e pelo medo, respectivamente? Será que vale a busca pelo comportamento medido, calculado, bem pensado, cheio de razão? Ou será que mais vale o baile dos corpos cheios de sensações e multiplicidades?