quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Gabriella

Acompanhamento necessário das rimas em 'or', o amor me tomou de assalto num momento de dor e humor extravagantes. Veio sendo gestado no inconsciente, crescendo no trabalho e nos sorrisos. Quando ganhou forma de companhia presente, de corpo e de cheiros - e olhares, e cabelos, e dentes, e mãos, e coxas, e joelhos, e pés [como balançam!] - e de tudo mais que indica que está na mesma frequência física, eu já estava tomada de borboletas coloridas. Quando abri a boca já saiu uma delas voando azul e amarela para fora de mim, vinha anunciar que o amor se instalara no meu prédio, no segundo andar, de frente pro portão que sorri quando entras no domingo pra irmos à feira e descobrir que pode ser bom juntar essas moças. 

Fiquei amortecida do amor que cresceu entre jabuticabas e cajus, embalado no papel-jornal do namorado, e quente do dia inteiro a sorrir. É tão alegre esse encontro, sinto que a cidade retribui o afeto e mostra seus recantos mais maravilhosos pra que nos deleitemos também com o cenário. A primavera carioca é gentil conosco, com nossa cama matinal, com nossos beijos deliciosamente demorados: não escorre o suor do verão, nem exige nada mais que um lençol leve sobre nossos corpos nus. 

Morro, chope, Glória, remontando e construindo uma história com uma historiadora, peixe e caipirinha, a promessa lírica, o reencontro na luta - que essa vida não tá de brincadeira, o canto forte em língua estrangeira - a terra estranha que nos acolheu, os povos que estiveram aqui, o canto triste dos escravos que construíram os prédios que ainda hoje impressionam, a terra estrangeira que te acolheu e alimentou - o mundo dando voltas numa espiral ascendente que não conseguimos captar. Acho que ganhamos dois degraus depois desse encontro. Teve alma ali, alma em busca de se lapidar nessa procura toda. 

Teve banho de banheira, e foi tão natural como se estivéssemos aguardando esse momento há anos, como se fosse o que devia acontecer. Sinto ainda a tua boca quente tocando a minha, teus lábios me levam pra outro lugar [ainda não defino que céu é esse, mas é bom e acolhedor], tuas mãos pequenas me tocam nos braços, no rosto, me afagam, eu te afago, te sinto vibrando, teus sons me dão alegria, te beijo, me beijas, nos beijamos num abraço só, uma confusão explicadinha de corpos desejosos e desejantes desse afeto que cresceu no fermento das águas do Rio Carioca, água desviada pros nossos corpos, águas dos nossos corpos. Minha mão na tua boca, teu calor se transmutando em meu calor, trocas intensas, trocas energéticas de uma frequência quase esquecida, trocamos carinhos, prazeres, histórias, comidas e algumas noites por manhãs.

Te quero em outros banhos, em futuras trocas, em cidades novas. Dois beijos!

domingo, 18 de setembro de 2016

Do filme do Alceu Valença, no outono carioca

Virgulino correu e caiu
Tropeçou na margem da linha do trem
Virgulino vinha azedo de seus afazeres
Distraiu-se consigo mesmo aprisionado
[e decapitado-fatiado-picotado-esquartejado]

Exposto pelas ordens republicanas
De um bom oficial, pai de família
Comportado e ciente de seu dever moral
Amar a pátria mãe

Virgulino em pedaços juntava-se novamente ao cangaço
Daí nasceu uma rima ruim
E oficial ainda carregou mais cinquenta gramas de metal
No bolso da jaqueta verde-oliva [e brega]


[Santa Teresa D'Ávila, 25.05.2016]