segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Junto do centro

Dispersa, aérea, solta, leve, desatenta.

A menina andava assim: mãos e pés na terra e a cabeça nas estrelas. Tinha conhecido suas dores e suas delícias. Suas maravilhosas pontas nuas, dicotômicas. Mas ela sentia que não era suficientemente completa sem interpelar o mundo com aquela sua cara curiosa. Se se olhasse com atenção podíamos ver no seu rosto um ponto de interrogação que saltava pelo seu nariz a todo instante. O sinal gráfico, maroto que só, ora descia para sua boca e dali saltavam perguntas sérias, perguntas bobas, perguntas de todo tipo. Havia momentos de um simulacro de interrogatório policial, enlouquecendo com isso os calados e  também os reclusos. Em outras horas o ponto de interrogação se duplicava ainda na ponta do nariz, soltavam-se num pulo para as bochechas e, gêmeos, percorriam as maças do rosto, saltitantes e tagarelas, depois mergulhavam fundo no interior daqueles olhos verdes. Era então que aqueles olhos, quase sempre marejados, ficavam ávidos pelo mundo, sedentos de respostas pra uma imensidão de perguntas que nem sempre a boca dava conta de formular.

Eram os pontos de interrogação se multiplicando feito girinos naquele ambiente líquido que eram os olhos da menina. E ela estava a se tornar mulher.