domingo, 29 de novembro de 2015

Vento na urbe

O encontro se faz assim, entre cantos de pássaros, ondas no mar, tiroteios e alimentos ruins. O que tem nessa indústria farmacopornográfica que o centro impõe e a periferia engole? Eu cuspo! Rebelde de mim, rebelde do mundo. Não posso ser conforme a isso tudo. Sofro mais? Sem dúvidas. Ou com dúvidas (que enriquecem-enlouquecem essa vida).

E se a tristeza tem fim e a felicidade pode ser simples como um aperto de mão (como diz a carta que o Biel mandou pra nós, aqui do Brasil), melhor não levar tudo tão a sério mesmo, né? Nem tão na boa =)

Aquela ânsia dos saberes vem por dentro, corrói os números que vem por dentro, se expressa confusa. Desejos de saber de si, historicizar-se, conhecer o pai. O luto não fecha, quelóide maldito, remoendo sem libertar-se ainda. Sorte dos aconchegos da vida, das carícias íntimas e públicas, do café com bolo de mãe. Ser miúda outra vez. O namorado adolescente previu cenas contemporâneas. O tempo na contramão dos demais. Adulta aos 7, bebê aos 30. É legítimo sorrir.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Junto do centro

Dispersa, aérea, solta, leve, desatenta.

A menina andava assim: mãos e pés na terra e a cabeça nas estrelas. Tinha conhecido suas dores e suas delícias. Suas maravilhosas pontas nuas, dicotômicas. Mas ela sentia que não era suficientemente completa sem interpelar o mundo com aquela sua cara curiosa. Se se olhasse com atenção podíamos ver no seu rosto um ponto de interrogação que saltava pelo seu nariz a todo instante. O sinal gráfico, maroto que só, ora descia para sua boca e dali saltavam perguntas sérias, perguntas bobas, perguntas de todo tipo. Havia momentos de um simulacro de interrogatório policial, enlouquecendo com isso os calados e  também os reclusos. Em outras horas o ponto de interrogação se duplicava ainda na ponta do nariz, soltavam-se num pulo para as bochechas e, gêmeos, percorriam as maças do rosto, saltitantes e tagarelas, depois mergulhavam fundo no interior daqueles olhos verdes. Era então que aqueles olhos, quase sempre marejados, ficavam ávidos pelo mundo, sedentos de respostas pra uma imensidão de perguntas que nem sempre a boca dava conta de formular.

Eram os pontos de interrogação se multiplicando feito girinos naquele ambiente líquido que eram os olhos da menina. E ela estava a se tornar mulher.

domingo, 22 de novembro de 2015

Amor

Arte total. Vem de onde essa sensação de querer bem?

Afeto, desejo, preocupação.

Sentir todos os poros vibrando junto, respirar junto, suar e sorrir.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Saia

Fique aí, experimente a nova roupa da nudez total. Case-se consigo, bodas de autoafirmação e ócio. Começa em um novembro escorrido, aqui e acolá sambam, bebem, sorriem. Ali a chuva assola, derruba as margens, destroi mais de quinze lares. E lá longe não vai ter carnaval. Pressa total. Reconstruir.

E a América católica? Cada vez mais Pachamama, será mesmo? Não te desoriente, menina. Firme nas convicções, desejosa de dias melhores. Cozinhe e reencante o mundo. A burocrata rebelde já se foi. Causas justas, persista! Amém!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Armadura

Afrouxar as carapuças
Ver o outro
Sentir e amar

Solta

Bem leve, leve - como a Marisa
Releve

Revele(se)

[e aquele sol em Peixes, faz o que?]

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Findador

Cento e oito contas pra tocar
Cento e sete vidas a sorrir
Cento e seis lamentos (perdidos)
Cento e cinco luas cheias a te encontrar
Cento e quatro girassóis despetalados 
Cento e três porcelanas trincadas
Cento e duas casas desarranjadas
Cento e um volumes encadernados

No centésimo dia pude me ver refletida 
Vi o choro contido, o amor rompido, mas nada tinha estilhaçado
Tentei a cura no sétimo mês
O suicídio uma segunda vez
E a matemática ainda não fechava
Engoli o mundo, me abracei bem fundo
E o ciclo em flor longe não mais estava

sábado, 6 de junho de 2015

Deixa eu dizer?

Será que existe mesmo algum amor feito eu inventei pra mim?
-       E se tu tivesse pensado em mim antes?
Não consegui, tenho dúvidas da minha capacidade de me colocar no lugar do outro (apesar de tudo me doer profundamente).
-       O que queres comigo?
Um aconchego, a certeza de que as coisas se acalmarão, um bem-querer recíproco e despreocupado. Talvez fé. Principalmente fé.

DAS POSSIBILIDADES:

1. O quadro da dor

-       Não sou capaz de fazer isso comigo novamente!
[É brutal a falta de sentido. Todos andam para não ficar parados. O sol brilha só porque já está acostumado. Sem palavras delicadas. Sem proteção. Desamparo interminável.]

2. A lenta recuperação

-       Agora tu me vens falar de fé? E toda crença que depositei naquele conforto a 2?
O que dizer? Me desculpe? Volta? Já são quase dois anos e ainda sofro. Me arrependo da minha insularidade setentrional. O certo era ter ficado perto. Descobrir o que poderia acontecer perto. Sentir os calafrios de estar junto, e a ansiedade boa das 15h, quando chegas as 17h.

3. A linda e doce ilusão de ser amado

Quem sabe tentamos uma vez mais? Ainda há esse espaço pra esse bem-querer recíproco? Todo fragmento constrói uma história que pode valer a pena (ou essas eletroletras). Lembro e esqueço tudo. Lembro da caixa do João Cabral de Melo Neto, que o amor consumia tudo. Lembro de um certo ar avoado que exprime muito. Lembro da mão na cintura, dos bailinhos, dos sorrisos. Lembro da doçura do encontro, e das partidas que revelavam que deixar-se estar também pode ser difícil. [Sei que agora é o meu momento de sinalizar qualquer coisa, mas e se for tudo ilusão? Calma,  que tudo se acerta].

 Lembro da despedida no último sábado à noite. Podia ser um até breve de quem não se importa, mas eu vi um foi-e-voltou que me deixou com o coração (em chamas) na mão.  É isso tudo ilusório?

Enquanto não sei se quero descobrir qual dos cenários vai se apresentar. Penso e canto com o teu amigo “qual é o comprimido que se toma pra assistir tranquilo ao teatro de sombras?”. E amanhã vou dormir sem despertador.

domingo, 10 de maio de 2015

Desacorrentados

Quase como uma coisa só eles iam andando solenes, certos das verdades repetidas, dos lamentos, da correria. Eles eram de alguma forma uma unidade, não posso precisar o que os separava e o que os unia. Fusão, amálgama, dois-em-um, eles eram os ossos, estrutura, fundação, o músculo, carne, enchimento, a pele, revestimento, superfície. Eles eram díspares univitelinos. Gêmeos em negativo, preto e branco, eles eram sol forte e  lua negra simultânea.  Yin e yang fundidos na matéria e no espírito. Ensimesmados a dois. Sós.

domingo, 26 de abril de 2015

rEVOLution

E se o amor andasse na contramão da revolução?

Ah, as utopias. Como pode ser a vida na sociedade fraterna imaginada por alguém que tem relações conflituosas com os irmãos - irmãos de sangue, não os de espírito - como seria? O tempo acelera no século XXI, assim os conflitos ora se acentuam, ora se amenizam. Seguimos vivos. E a utopia no horizonte. 

A desigualdade é tema desde a infância pela diferença dentro de casa. Teve a sorte de ter casa. O trabalho dignifica o homem? E qual o papel possível pra mulher? Trabalho doméstico não reconhecido, chamado de amor. E as vidas que passam-se solitárias? Reflexo da solidão desse momento que questiono tudo. Neil deGrasse Tyson lembra da atitude científica de tudo questionar. E a crença na ciência e sua fé inabalável? E os multiversos da teoria das cordas? E uma apreensão rasa de tudo? 

A resposta simples não é invadir os mistérios, é aceitá-los. Cosmologias distintas, uma vida muito curta para saber qualquer coisa. Se estamos definitivamente no mesmo barco, temos que aprender a respeitar as diferentes cosmologias. Não está dado que a física ocidental consegue explicar os assuntos humanos. Alguém cuidou da terra para que todos os que se dedicam ao intelecto possam assim ficar. Temos de nos respeitar primeiro.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Margem

Poderia imprimir teu corpo no meu, deitar-me no teu corpo, deixar-te livre para que me escolhas, mas nada disso sustaria o momento-fogo que te imaginei. Foste um estampido surdo dentro de mim, tu que ecoavas no mundo, alheio a tudo que estava a transformarmo-nos numa substância só. Como clarabóia que não deixava ver o todo, te recortei do tamanho exato da moldura disponível. Encaixaste. Se ficas ou se escorregas fora já não sei. Vendo-te. Tamanho M, frete a combinar.

terça-feira, 24 de março de 2015

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Mundo complexo que atormenta e fascina, contrafazendo tudo que somos. Deixamos de ser superposições identitárias para tornarmo-nos seres existentes. Não sou jogador & mitômano,  sou apenas.

Permita o aparte construtor do século XXI. Somos coisas-máquinas engendrando o nada. Expor. Exponenciais variáveis flutuantes no sistema-mundo. Somos o que pensamos ser - não somos nada. Arremedo de conversa, monólogo surdo do interior, ainda há espaço para o outro arriscar-se. A publicidade não existe sem a coisa humana assistindo. Só existe o que toco, vejo, respiro. Se não digiro, inexiste. Haverá devires possíveis na existência líquida?