quinta-feira, 31 de maio de 2012

Bruto

Linhas no vento, cacos de vidro, sessenta e sete pontos. Motocicleta, pipa/papagaio, confusão com feridos, ele tinha onze anos e era um criminoso. Ele tinha trinta e quatro e um filho de nove. Estava tudo algarismado, plasmado no jornal. Deixa viúva seis dias depois. Não tem mais história, só dor.

sábado, 5 de maio de 2012

Dois sóis

Nasceu num sábado de manhã, perto do meio dia, e ficava sempre aguardando o sábado, como a fazer aniversário toda semana. E adorava o sábado, o dia mais lindo, capaz de pausar todas as angústias ansiosas por revoluções. O sábado iluminava a semana. Nunca passava em brancas nuvens, era a alegria atordoante solar. Parada na sombra de uma árvore copada, Alice ria de si e de seus mundos maravilhosos, gêmea, tinha que dividir a luminosidade de seu sábado com o irmão, nublado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Frio


Dentro da nuvem eu sentia frio. Chovia e ventava pelo interior daquele azul imenso. Havia algumas velas acesas, balançando as chamas conforme o vento, ora apagava uma, ora alguém acendia outra, e elas ficavam ali, fingindo que aqueciam, fingindo que iluminavam. Também fingíamos de volta, um troco besta porque elas não serviam para nada, a não ser para dar a sensação de que algo podia tentar vencer o frio e o vento de dentro da nuvem.

- Persiste porra, persiste e acaba com tudo, o poder de desfazer toda nuvem é teu.
Estar na nuvem exercia uma certa sedução em todos nós, um delírio difuso de poder observar oculto, onipresente e invisível. Não era ficar acima de todos o que almejávamos dentro da nuvem, tinha alguma inspiração do divino, a promessa das harpas e do branco que finalmente acalmaria o projeto-ser. Aceitávamos as intempéries na esperança de chegar a hora, como uma prova pra merecer a promessa. 

- Quero descer, sair dessa droga de nuvem! Me solta! Deixa eu sair agora!

Ficamos muito balançando no vento frio, dias e noites dentro da nuvem.  Enquanto a tempestade não desaparecia não observávamos lá embaixo. Ainda assim imaginávamos que as pessoas no chão nos olhavam, provavelmente pra pensar quando acabariam esses estrondosos dias azuis.
Sem poder sequer vislumbrar que os desaparecidos estavam acima, no olho da nuvem.

Quando o vento parou de zumbir começou a clarear, azul denso, azul fixo, azul frouxo, azulznho céu-de-dia-novo, branco respingando azul, branco limpo, branco lindo, branco que doía os olhos e purificava nossos desejos. Era aquilo que queríamos quando aceitamos entrar na nuvem, não o frio. O branco era ameno e claro, e pudemos apagar as velas. Alguns puderam se erguer e sumiram outros foram ficando mais leves e começavam a flutuar pelo interior da nuvem. Eu ainda sentia frio e estava com os pés úmidos, bem fincados no branco-algodão.



- Pensa que vais ser assim pra sempre? Não mesmo. Eu consigo sair dessa.


Ficar assim, suspenso, era ainda mais difícil naqueles dias de frio. Parecia que eles queriam mostrar o quão poderosos eram. Como se estivessem numa sala de comando decidindo que só merece voar quem a tempestade enfrenta. Nós no frio que o vento só fazia aumentar, dentro do azul-temporal que dava a dimensão exata da nossa pretensão. Gigante, humilhava nossa pequenez.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

Começar de novo


Criança aprendendo a engatinhar, trêmula e gulosa de tudo. Segura o pé da mesa e se põe em pé. A primeira arte foi queimar o pezinho no forno, serå que comeu samambaia também? Cai, levanta, quem está atrás da porta? Abre, roda, e acha de novo, tudo tem graça.
A risada mais gostosa, as covinhas na bochecha gorda, come brigadeiro e tudo em volta fica marrom também. A aventura de se expor aos sabores novos, chá com leite, o violão chorando aquela do Roberto, a vó chora junto no doce-amargo. Todos juntos, é feriado, ainda bem que é feriado! 
Memorial descontruído e inventado, a infância feliz e a confiança que sumiu, será que volta? Sabe a que mãe canta do Erasmo? Repetida sempre e sempre, e parece que fica redondando, gira no entorno,  'acaba redundando desse jeito, garota!'. Tudo é uma questão de se evitar a fadiga. Quente e sangrando no ovo do mundo. Hoje não tem criança na plateia.

domingo, 22 de abril de 2012

Dia 20

No pensamento numérico, a conta fecha ou fica aberta: venceremos o próximo mês? E a vida? Assim ela fica abrutalhada e se esvai fluida sem tempo para perceber. 


Bronca, brutal, besta, boboca, chula, tosca, eficiente, falsa, fabril, fixa, padrão.
                                             Versus - Versos
Lapidada, carinhada, macia, perfurante, perfumada, trabalhada, literária, fantasia, franca, febril, frouxa, singular.

domingo, 15 de abril de 2012

Voltando

Veio subindo lentamente contando os degraus, carregado de antigos suspiros, cheio de memórias afetivas construídas e de lembranças cuidadosamente coladas, chegava do longo exílio que se impusera aos dezessete. No último lance de escada já estava arrependido de ter retornado à casa de seus pais. No terceiro andar notou que não tinha mais a grade verde na porta do 31, será que ainda era a velha Margarida que morava ali? Fazia quase dez anos que não sentia o cheiro de chá de macela que sempre emanava através daquela porta gradeada.

Ficou parado alguns segundos pensando que fazia a coisa certa e decidiu subir o último lance, tonto do regresso e da escada, nem lembrava do desgaste de subir e descer todos os dias depois de tanto tempo vivendo no térreo.

terça-feira, 20 de março de 2012

Afazeres

Chegar no osso
Essência que te quero funda
Basta essa aparência toda
Deu de tanta maquiagem e perfume [sem terapia]
Já não me basta o banho quente
Quero mais, quero fundo, dentro
Não mais ferida, quero o antídoto [vem sempre junto a dor]
E ela ensina mesmo a gemer?


Ainda posso ser útil?