quinta-feira, 31 de maio de 2012
Bruto
sábado, 5 de maio de 2012
Dois sóis
terça-feira, 1 de maio de 2012
Frio
- Persiste porra, persiste e acaba com tudo, o poder de desfazer toda nuvem é teu.
Estar na nuvem exercia uma certa sedução em todos nós, um delírio difuso de poder observar oculto, onipresente e invisível. Não era ficar acima de todos o que almejávamos dentro da nuvem, tinha alguma inspiração do divino, a promessa das harpas e do branco que finalmente acalmaria o projeto-ser. Aceitávamos as intempéries na esperança de chegar a hora, como uma prova pra merecer a promessa.
- Quero descer, sair dessa droga de nuvem! Me solta! Deixa eu sair agora!
Ficamos muito balançando no vento frio, dias e noites dentro da nuvem. Enquanto a tempestade não desaparecia não observávamos lá embaixo. Ainda assim imaginávamos que as pessoas no chão nos olhavam, provavelmente pra pensar quando acabariam esses estrondosos dias azuis.
Sem poder sequer vislumbrar que os desaparecidos estavam acima, no olho da nuvem.
Quando o vento parou de zumbir começou a clarear, azul denso, azul fixo, azul frouxo, azulznho céu-de-dia-novo, branco respingando azul, branco limpo, branco lindo, branco que doía os olhos e purificava nossos desejos. Era aquilo que queríamos quando aceitamos entrar na nuvem, não o frio. O branco era ameno e claro, e pudemos apagar as velas. Alguns puderam se erguer e sumiram outros foram ficando mais leves e começavam a flutuar pelo interior da nuvem. Eu ainda sentia frio e estava com os pés úmidos, bem fincados no branco-algodão.
- Pensa que vais ser assim pra sempre? Não mesmo. Eu consigo sair dessa.
Ficar assim, suspenso, era ainda mais difícil naqueles dias de frio. Parecia que eles queriam mostrar o quão poderosos eram. Como se estivessem numa sala de comando decidindo que só merece voar quem a tempestade enfrenta. Nós no frio que o vento só fazia aumentar, dentro do azul-temporal que dava a dimensão exata da nossa pretensão. Gigante, humilhava nossa pequenez.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Começar de novo
domingo, 22 de abril de 2012
Dia 20
Bronca, brutal, besta, boboca, chula, tosca, eficiente, falsa, fabril, fixa, padrão.
Versus - Versos
Lapidada, carinhada, macia, perfurante, perfumada, trabalhada, literária, fantasia, franca, febril, frouxa, singular.
domingo, 15 de abril de 2012
Voltando
Veio subindo lentamente contando os degraus, carregado de antigos suspiros, cheio de memórias afetivas construídas e de lembranças cuidadosamente coladas, chegava do longo exílio que se impusera aos dezessete. No último lance de escada já estava arrependido de ter retornado à casa de seus pais. No terceiro andar notou que não tinha mais a grade verde na porta do 31, será que ainda era a velha Margarida que morava ali? Fazia quase dez anos que não sentia o cheiro de chá de macela que sempre emanava através daquela porta gradeada.
Ficou parado alguns segundos pensando que fazia a coisa certa e decidiu subir o último lance, tonto do regresso e da escada, nem lembrava do desgaste de subir e descer todos os dias depois de tanto tempo vivendo no térreo.
terça-feira, 20 de março de 2012
Afazeres
Essência que te quero funda
Basta essa aparência toda
Deu de tanta maquiagem e perfume [sem terapia]
Já não me basta o banho quente
Quero mais, quero fundo, dentro
Não mais ferida, quero o antídoto [vem sempre junto a dor]
E ela ensina mesmo a gemer?
Ainda posso ser útil?