terça-feira, 1 de maio de 2012

Frio


Dentro da nuvem eu sentia frio. Chovia e ventava pelo interior daquele azul imenso. Havia algumas velas acesas, balançando as chamas conforme o vento, ora apagava uma, ora alguém acendia outra, e elas ficavam ali, fingindo que aqueciam, fingindo que iluminavam. Também fingíamos de volta, um troco besta porque elas não serviam para nada, a não ser para dar a sensação de que algo podia tentar vencer o frio e o vento de dentro da nuvem.

- Persiste porra, persiste e acaba com tudo, o poder de desfazer toda nuvem é teu.
Estar na nuvem exercia uma certa sedução em todos nós, um delírio difuso de poder observar oculto, onipresente e invisível. Não era ficar acima de todos o que almejávamos dentro da nuvem, tinha alguma inspiração do divino, a promessa das harpas e do branco que finalmente acalmaria o projeto-ser. Aceitávamos as intempéries na esperança de chegar a hora, como uma prova pra merecer a promessa. 

- Quero descer, sair dessa droga de nuvem! Me solta! Deixa eu sair agora!

Ficamos muito balançando no vento frio, dias e noites dentro da nuvem.  Enquanto a tempestade não desaparecia não observávamos lá embaixo. Ainda assim imaginávamos que as pessoas no chão nos olhavam, provavelmente pra pensar quando acabariam esses estrondosos dias azuis.
Sem poder sequer vislumbrar que os desaparecidos estavam acima, no olho da nuvem.

Quando o vento parou de zumbir começou a clarear, azul denso, azul fixo, azul frouxo, azulznho céu-de-dia-novo, branco respingando azul, branco limpo, branco lindo, branco que doía os olhos e purificava nossos desejos. Era aquilo que queríamos quando aceitamos entrar na nuvem, não o frio. O branco era ameno e claro, e pudemos apagar as velas. Alguns puderam se erguer e sumiram outros foram ficando mais leves e começavam a flutuar pelo interior da nuvem. Eu ainda sentia frio e estava com os pés úmidos, bem fincados no branco-algodão.



- Pensa que vais ser assim pra sempre? Não mesmo. Eu consigo sair dessa.


Ficar assim, suspenso, era ainda mais difícil naqueles dias de frio. Parecia que eles queriam mostrar o quão poderosos eram. Como se estivessem numa sala de comando decidindo que só merece voar quem a tempestade enfrenta. Nós no frio que o vento só fazia aumentar, dentro do azul-temporal que dava a dimensão exata da nossa pretensão. Gigante, humilhava nossa pequenez.